© 2020 Erika Beux. 

Mergulhando com as raias mantas gigantes do Equador

March 27, 2019

Texto: Rodrigo Tronquini e Erika Beux

Fotos: Erika Beux e Vera Leão.

 

 

Os encontros com raias mantas gigantes estão na lista de desejos de muitos mergulhadores, mas o que pouca gente sabe é que mergulhar com elas pode ser num local mais perto e mais barato do que se imagina.

 

No Brasil, as raias mantas são mais facilmente encontradas nas ilhas paulistas no período de Maio a Agosto e sem época definida no Arquipélago de Fernando de Noronha. Porém, como os encontros com as gigantes marinhas ocorrem ao acaso, o jeito é procurá-las em outros locais do mundo.

 

Atualmente, os destinos mais conhecidos para mergulhar com as mantas são: México (Caribe e Pacífico), Moçambique, Indonésia, Maldivas, Tailândia e Havaí. No lado caribenho mexicano é possível o encontro com as raias mantas junto com tubarões baleias num day tour de snorkeling no período de Junho a Setembro, quando os animais se aproximam da Isla Holbox e Isla Mujeres em busca de alimento. Em contrapartida, para mergulhar no lado do Pacífico mexicano e todos os demais destinos citados acima, o mergulhador precisará se programar com mais tempo e dinheiro, pois as viagens acontecem em locais de difícil acesso, onde só é possível chegar por liveaboard ou com diversos voos e conexões que podem levar mais de 30h ao destino final.    

 

Mas em épocas de crise, o brasileiro sempre dá um jeitinho de viajar e se divertir sem gastar muito.

Quando se fala em mergulhar no Equador, logo pensamos em Galápagos. Mas a sugestão é unir simplicidade com aventura e mergulhar com as raias mantas gigantes de Bajo Cope, partindo de Ayangue.

 

A pequena vila de pescadores pertencente à província de Santa Elena foi fundada em 1982 e é conhecida como a Piscina do Pacífico, distante apenas 150 km do aeroporto de Guayaquil.

 

Essa denominação é resultado do formato de ferradura da orla, proporcionando ao visitante uma praia de águas calmas e protegidas das fortes correntes que passam pela região.

 

No verão, Ayangue se transforma num local de veraneio onde é possível contemplar a bela paisagem e ainda desfrutar de boa comida, pois ao largo da orla existem vários “comedouros”, que são como barracas de praia de ambiente simples e aconchegante, onde é possível se deliciar com a gastronomia local desde petiscos à pratos de carnes e frutos do mar com excelente custo X benefício.

 

Se você espera agito, definitivamente Ayangue não é o lugar para baladas, mas é ótimo para quem quiser relaxar e descansar. Aos festeiros de plantão, a poucos quilômetros do vilarejo, encontrarão a “Ibiza das Américas”, segundo relato dos equatorianos. Montañita é uma praia muito popular entre os surfistas devido às excelentes ondas, mas também pelo seu clima festeiro repleto de bares e discotecas, perfeito para desfrutar de um ambiente latino único ao som do ritmo reggaeton.

 

OS MERGULHOS:

 

Ainda desconhecida pelo turismo do mergulho, Ayangue possui a Reserva Marinha Islote El Pelado, a qual é de grande importância para o país, já que abriga a maior diversidade de vida marinha nos seus 13 mil hectares de águas protegidas e 96 hectares terrestres.

 

Islote El Pelado é uma ilha oceânica localizada em frente à praia de Ayangue e não exige mais do que 15 minutos de navegação.  O costão rochoso de baixa profundidade abriga um recife de coral diversificado e ainda serve de refúgio para uma grande quantidade e diversidade de peixes e invertebrados, com destaque para os ouriços, estrelas-do-mar, anêmonas, nudibrânquios, lagostas e cavalos-marinhos. Para quem gosta de fotografia macro é o lugar perfeito para excelentes cliques.

 

Na parte terrestre da ilha é possível avistar os ninhais de aves marinhas como fragatas, pelicanos e atobás, além de se deparar com os lobos marinhos descansando sobre as rochas.

 

O ponto de mergulho também é famoso pela existência do “Sagrado Corazón de Jesús de las Aguas” uma estátua de Cristo com os braços abertos que se encontra a uma profundidade de 11 metros. Ela foi colocada por uma associação de pescadores locais em 2011 em forma de agradecimento pelo aumento da oferta de pescados na região.

 

Bajo Cope: “a cereja do bolo”.  Localizado a 20 milhas náuticas da praia da Ayangue, cerca de 1h a 1:30h de navegação, Bajo Cope é um parcel de três formações rochosas medindo em torno de 400 metros de comprimento, onde existe uma grande biodiversidade marinha como tartarugas, raias chitas, pargos, robalos, meros, peixe-lua, polvos, moreias e uma infinidade de peixes coloridos nos recifes de corais.

 

A temperatura da água de Dezembro a Junho fica em torno dos 26º C e pode chegar aos 14° C de Junho a Novembro por causa da Corrente de Humboldt que visita a costa equatoriana no inverno.

 

É com esta corrente que as raias mantas gigantes chegam em Bajo Cope e o local se transforma numa grande estação de limpeza entre os meses de Junho a Outubro.

 

Este ano de 2018 foi atípico e as mantas chegaram mais cedo. Em Março, os mergulhadores começaram a ter os primeiros encontros e o pico de avistamentos foi nos meses de Maio e Junho.

 

Em Agosto, dois grupos de mergulhadores brasileiros foram para Ayangue e pegaram condições de mar bem diferentes em questão de uma semana entre as trips. Um grupo teve o mar agitado, com ventos fortes, mar com ondas e correnteza que exigiram uma certa experiência dos mergulhadores. Já o outro grupo foi agraciado com um mar calmo, sem ondas, sem ventos fortes e sem correnteza que até mergulhadores iniciantes poderiam ter ido, porém isso não é o padrão dos mergulhos da região. Para encarar Bajo Cope normalmente é preciso ser mergulhador raiz, pois não existe ponto abrigado, a visibilidade pode estar comprometida e a subida à superfície é feita à deriva, sem cabo.

 

Durante as navegações de ida e volta de Bajo Cope, as baleias jubarte com seus filhotes davam um show à parte, ora saltando, ora acompanhando o barco e para qualquer lado do horizonte que olhássemos era possível ver inúmeros borrifos de água, que é o sinal de baleia respirando na superfície.

 

CONHECENDO AS MANTAS GIGANTES:

 

As raias mantas são parentes das móbulas e atualmente são conhecidas duas espécies de mantas: a Mobula birostris (M. birostris) e a Mobula alfredi (M. alfredi).

 

Nas Américas, encontramos apenas a M. birostris, a maior espécie de raia do mundo, podendo medir até 8 metros de envergadura. Elas são oceânicas, migratórias e vivem em grandes profundidades, mas se aproximam da costa em períodos sazonais em busca de alimentos e estações de limpeza.

 

As raias mantas se alimentam de plâncton e são totalmente inofensivas: não mordem, não possuem ferrão e nem dão choque como outras espécies de raias. A única defesa é o seu tamanho e a hidrodinâmica perfeita, permitindo que o animal possa nadar rapidamente para escapar dos seus predadores naturais: os tubarões e orcas. Porém, nada disso é suficiente para fugir do homem, que mata milhares de raias mantas no mundo todos os anos por causa de uma crendice infundada de que o aparelho filtrador delas tem propriedades medicinais e filtraria o sangue de pessoas com problemas renais.

 

Com a reprodução tardia, a baixa taxa reprodutiva e o alto índice de predação por pressões de pesca, colocam as raias mantas na lista vermelha da IUCN (International Union for Conservation of Nature) como espécies vulneráveis à extinção.

 

Qual o motivo disso?

As raias mantas atingem a maturidade sexual por volta dos 7 anos de idade e geram um único filhote após 14 meses de gestação. Além disso, entre uma cria e outra, as fêmeas entram num período de resguardo energético que pode levar de 2 a 3 anos. Ou seja, para um animal que possui uma expectativa de vida em torno de 20 anos, uma raia manta pode gerar de 5 a 6 filhotes em toda a sua existência, enquanto a pesca e captura acidental por by catch mata milhares de animais por ano.

 

O que Bajo Cope tem de especial?

Com a chegada das águas frias de Humboldt, as populações de mantas se aproximam da costa do Equador e se concentram nas estações de limpeza, onde duas espécies de peixes, o peixe-anjo e o peixe-borboleta, retiram os parasitas do corpo delas.

 

Extremamente curiosas, as mantas se aproximam dos mergulhadores e interagem o tempo todo: ora nadando em círculos como se fosse um carrossel, ora ficam paradas nas nossas cabeças ou esmagando a gente na areia. Quem já mergulhou com raias mantas em outros lugares do mundo afirma que essa interação só acontece com os animais do Equador.

 

Em cada mergulho podemos avistar de 4 a 8 animais diferentes, todos dóceis, e o nível de interação era tão grande, que é impossível descrever o que vivenciamos e a intensidade das emoções que sentimos devido a beleza do espetáculo que as raias nos proporcionaram em cada mergulho.

 

O que é mais fantástico no encontro com as gigantes não é observá-las e sim, ser observado por elas. O mergulhador vira o centro das atenções enquanto três ou mais animais desviam uns dos outros em um balé gracioso, como se disputassem lugar para ver quem chega mais perto. Até na parada de segurança tínhamos companhia como se as mantas quisessem dizer “até logo”.

 

Como conter o choro numa hora dessas???

 

Acha que acabou por aqui? Se mergulhar com raia manta já é maravilhoso, imagina com a trilha sonora do canto das jubartes? Em poucos lugares do mundo podemos mergulhar com os seres mais belos dos oceanos ao som das baleias cantoras.

 

 

 

Como não se apaixonar por um lugar que te surpreende a todo instante?

 

Mas vale ressaltar que Ayangue não é para qualquer um. Tanto a vila, quanto o hotel, restaurantes, a operadora de mergulho e o barco são muito simples, sem nenhum luxo, sem conforto e alguns quesitos beiram a precariedade. Porém, tudo é muito cômodo: o hotel em frente à praia de onde saem os barcos, a operadora ao pé da areia e ao do lado das barracas de comida e drinks, compensam boa parte das dificuldades que encontramos para nos adaptarmos ao estilo da comunidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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